Sombras...
Já disfarço meu desejo
em lembranças, nada mais.
A sombra de alguma ausência
penetrou na minha vida
deixou rastros, rastros, rastros
e nunca mais me deixou.
Ficou presa no meu corpo,
tomou conta de minh'alma,
fez-se pedra, vento, lago
e tanto buliu comigo,
dançando na minha frente,
pulando dentro de mim,
que um dia me senti leve,
feita de sombra também.
Levava a tarde no rosto
silêncio no coração.
Imagens muitas da vida
brincavam na minha frente.
Paisagens brancas,
paisagens semi-escondidas no tempo
paisagens semi-escondidas no tempo
se juntavam, constituiam
uma argamassa de sonhos
que aos poucos se desfazia
num grito de solidão.
A sombra me vendo sombra,
de igual natureza e cor,
a sombra se fez autônoma,
saiu de dentro de mim,
deu-me os braços pela rua
e andamos por muitos dias
casal de sombras felizes,
alheios aos olhos das gentes
que se riam de nós dois,
ou só de mim, por que a sombra
que comigo caminhava
não se dava a conhecer.
Viam meu gesto buscando
um corpo inútil, volátil,
transparente como o vento,
o ceu, a nuvem, o arco-iris,
as coisas feitas de sol.
Mas nenhum vestigio viam
daquela sombra demente
que eu parecia abraçar,
dizendo coisas sem nexo,
como um louco que passasse
conversando com ninguém.

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